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Ensino desenvolve municípios do interior


 
A interiorização do ensino superior no Estado está acelerando o processo de crescimento de municípios paraibanos, em diversas áreas. A instalação de campi de instituições públicas em cidades do interior já causa um desenvolvimento visível em todas as regiões da Paraíba.
Cajazeiras, no Alto Sertão, já tem o 8º maior PIB (Produto Interno Bruto) do Estado (R$ 399 milhões), possui dois campi (da UFCG e do IFPB) e ganhou, em apenas um ano (2008 para 2009) 196 novas empresas, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Alunos da Capital estão migrando para Cajazeiras em busca do diploma de nível superior.
Sousa, também no Alto Sertão, segue o mesmo ritmo: já é a 7ª economia da Paraíba (com PIB R$ 467 milhões) e registrou 167 novas empresas nesse mesmo período. Patos, no Sertão, também é uma das que mais cresce. A cidade já tem o 5º maior PIB (R$ 542 milhões), três campi, da UFCG, UEPB e do IFPB e ganhou, em um ano, 46 novos empreendimentos, segundo o IBGE.
Já Sumé, no Cariri paraibano, registrou este ano um aumento de 63% na arrecadação de tributos em relação a 2009, antes da cidade receber o campus da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).
 Segundo o secretário de finanças do município, Robério Cipriano Gonçalves, a arrecadação do município era em torno de R$ 160 mil em 2009 e, este ano, até o mês passado, a receita tributária já ultrapassava R$ 260 mil.
Em Picuí, no Curimataú, o campus do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Paraíba (IFPB), instalado em 2009, contribui para o desenvolvimento da cidade. Pelo menos 36 novas empresas foram abertas em um ano, segundo o IBGE (2008/2009). Entre os novos empreendidos estão restaurantes e lanchonetes. Segundo a diretora geral do campus, professora Verônica Lacerda Arnaud, já são quase 800 alunos (nível superior e técnico) e 15% deles são de outras cidades e Estados.
“Temos aluno até de São Paulo estudando aqui. A construção civil registrou um crescimento enorme por causa dos estudantes de fora e funcionários morando aqui. A gente atende nove cidades vizinhas, entre elas, do Rio Grande do Norte. O prefeito está mandando construir uma alça, que dará acesso direto ao campus”, informou a professora.
Nos próximos quatro anos, a Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) e a Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), deverão investir quase R$ 4 bilhões nos campi localizados no interior do Estado. Somente a UEPB estima que serão necessários R$ 2,5 bilhões para os sete campi já existentes, além de outros seis que deverão ser criados até 2015.
 Já a UFCG, calcula um investimento de, pelo menos, R$ 1,2 bilhão nos seis campi, além de projetos de expansão para novas unidades. Os investimentos feitos pelas universidades em regiões interioranas em municípios do Cariri, Curimataú, Brejo e Sertão, têm sido uma das principais fontes para o desenvolvimento regional.
 Já o IFPB, deverá investir, nos próximos quatro anos, cerca de R$ 700 milhões em campi de 12 cidades do interior, seis que já funcionam e seis que serão construídos até 2015, em Guarabira, Esperança, Catolé do Rocha, Santa Rita, Itabaiana e Itaporanga.

Ensino impulsiona crescimento em 30%

A instalação de um campus em uma cidade do interior faz com que ela cresça mais de 30% economicamente, segundo apontam pesquisas. Há pelo menos 15 anos, milhares de estudantes paraibanos que desejavam ingressar na universidade precisavam recorrer a João Pessoa, Campina Grande, Patos, Sousa e Cajazeiras. As dificuldades de acesso às instituições por causa da distância e da falta de condições financeiras acabavam adiando o sonho de muitos jovens de ter o diploma de graduação.
No entanto, nos últimos cinco anos, a realidade começou a mudar e mais de 50 mil estudantes conseguiram ingressar no ensino superior, após as instalações dos campi da UEPB, UFCG e do IFPB, em cidades de várias regiões do Estado. Hoje, a realidade é outra. A universidade chegou a cidades menores e já está ocorrendo um processo inverso: jovens da Capital estão migrando para o interior.
É o caso da estudante Suellen Martins de Oliveira, de João Pessoa. Ela passou no Vestibular de Medicina para o campus da UFCG, em Cajazeiras, e se mudou para o interior. “Acho interessante aqui em Cajazeiras, porque como é uma cidade menor, é mais fácil de me virar sozinha. Sinto falta de lazer no final de semana. Aqui não tem cinema”, afirmou a jovem, que cursa o 6º período. “Aqui, a maioria dos estudantes é de outros Estados. Na minha sala, 50% dos alunos são do Ceará, 30% do Rio Grande do Norte e só 20% da Paraíba”, acrescentou Suellen.
Antes da instalação dos campi, a economia de cidades como Patos, Pombal e Catolé do Rocha, no Sertão, Cuité e Araruna, no Curimataú, Sumé e Monteiro, no Cariri e Lagoa Seca, no Agreste, era baseada, principalmente, nos setores agrícolas, comércio e na prestação de serviços públicos.
 “As cidades, a exemplo de Patos, viviam basicamente destas atividades. A chegada dos campi – primeiro da UFCG, depois o da UEPB e do IFPB – trouxe uma nova dinâmica para essas cidades. Podemos analisar que Patos hoje é uma cidade em que a educação representa uma das principais fontes de desenvolvimento. Um desenvolvimento não apenas econômico, mas também social e cultural. Isso quer dizer que 30% de toda riqueza circulante na cidade é gerada pelos serviços realizados nos campus universitários”, afirmou o diretor do campus da UFCG em Patos, professor Paulo Bastos.
Sumé terá shopping

Para aproveitar o ‘boom’, proporcionado pela instalação do campus, o prefeito do município, Francisco Duarte Neto, disse que está sendo construído na cidade o primeiro shopping Center da região do Cariri paraibano. O empreendimento comercial irá contar com 56 lojas e uma praça de alimentação. “Temos que aproveitar o crescimento da cidade para investir nela. Hoje, Sumé apresenta um padrão de vida mais elevado e precisamos atender as pessoas que estão se mudando para cá. A economia da cidade está vivendo um momento revolucionário e os impostos arrecadados com as prestações de serviços de empresas que estão sendo abertas usamos para investir na saúde, educação e na infraestrutura”, destacou o prefeito.

Monteiro atende alunos de 31 municípios

Considerado o maior e mais importante município do Cariri paraibano, Monteiro conta com duas instituições de ensino superior e recebe 1.440 estudantes dos 31 municípios que compõem a região, além de alunos que vêm de outras regiões da Paraíba e também dos Estados de Pernambuco, Ceará e Rio Grande do Norte.
Somente a Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) conta com 840 alunos distribuídos nos cursos de Ciências Contábeis, Matemática e Letras. Já o Instituto Federal de Ciência e Tecnologia da Paraíba (IFPB), possui 600 alunos nos cursos de Integrado em Informática, Subsequente em Informática, Integrado em Instrumento Musical e o curso superior em Construção de Edifícios.
 Além disso, o IFPB contará, em 2012, com o curso de Análise e Desenvolvimento de Sistemas (ADS). Para se ter ideia do crescimento econômico, em um ano (2009 para 2010) Monteiro registrou um aumento de 22% na arrecadação de tributos, segundo Secretaria de Finanças do município.
Para o coordenador do campus da UEPB, José Joelson Pimentel, após a instalação da instituição, a cidade tornou-se um referencial em educação e atrai pessoas de várias regiões, inclusive de outros estados.
“Quando chegamos aqui, a cidade era mais parada. Mas, com alunos de vários lugares, professores e outros profissionais, a cidade foi mostrando uma nova dinâmica. Isso hoje é visível. Monteiro já é outra cidade, com mais pousadas, restaurantes, uma oferta de alimentação melhor. Tudo isso mudou a realidade da cidade” frisou.
O diretor geral do IFPB em Monteiro, Ricardo Lima, pontua que o impacto provocado pelo ensino superior em Monteiro é um dos mais fortes por causa das vocações que a região possui para arte, cultura e economia local.
“Monteiro é uma cidade com muitos potencias, como artístico, musical, uma cultura muito forte e a economia também. Mas tudo isso está se desenvolvendo muito mais com a interiorização do ensino, proporcionado pelas instituições que foram trazidas para cá”, disse o diretor.
Conforme a secretária de finanças do município, Renata Gadelha, o aumento populacional, o número de empresas abertas na cidade e o crescimento de vários setores fizeram com que o orçamento do município aumentasse. 
“O município cresceu muito nos últimos três anos por conta da universidade e do IFPB. E é preciso mais investimos para que ela possa atender a população, que tem crescido e exigido melhores condições por conta da elevação do padrão de vida. O orçamento anual para o próximo ano irá dobrar em relação a 2011”, revelou a secretária.
De acordo com Renata Gadelha, antes da instalação do IFPB, em 2009, a arrecadação em tributos foi de R$ 669 mil. Em 2010, subiu para R$ 818 mil e até o mês de outubro deste ano, o município já havia arrecadado cerca de R$ 600 mil. “Cresceram os números de empresas, principalmente de lojas comerciais. Também foram abertas novas lojas, pousadas e restaurantes. Isso tem desenvolvido muito a economia de Monteiro, que hoje é uma nova cidade”, contou.

Desenvolvimento da cidadania
Em Monteiro, a UEPB e o IFPB têm buscado desenvolver a cidadania, resgatar valores e fomentar a cultura local a partir das vocações, principalmente da música e da poesia. Os projetos de extensão envolvem os estudantes e a comunidade e integram pessoas de diferentes idades e classes sociais.
“A universidade não está aqui apenas para o ensino. Sabemos que é nosso papel fazer mais do que isso. A Universidade pode ocupar espaços na sociedade que nunca foram ocupados por nenhuma outra instância social. Tem muita gente carente que precisa aprender ser profissional e ter a cidadania resgatada, os valores e buscamos fazer isso, com a produção de conhecimentos e trazendo a comunidade para a universidade e também indo até a comunidade”, destacou o diretor do campus da UEPB, José Joelson Pimentel.
No campus, são oferecidos cursos gratuitos de música, teatro e poesia. “Percebemos que essas são as principais vocações artísticas do município e decidimos trabalhar com elas. Tudo isso contribui para um amadurecimento também da mentalidade das pessoas, que antes não contavam com essas oportunidades”, acrescentou Pimentel.
No IFPB, também há projetos de extensão que contribuem para o desenvolvimento social da cidade. Segundo o diretor de ensino Ítalo Oriente, entre os mais importantes, destaca-se o ‘Mulheres Mil’, que tem como objetivo capacitar um grupo de 100 mulheres carentes de uma comunidade da periferia do município. “Elas passarão por uma seleção e as 100 escolhidas irão estudar no IFPB, serem alfabetizadas e vão aprender uma profissão, que é na área de corte e costura. O IFPB vai comprar os equipamentos, e a primeira turma de mulheres já está sendo formada. Elas vão participar do projeto por um período de seis meses. Após isso, mais mulheres serão selecionadas para participar. Queremos que elas tenham oportunidade, para se profissionalizarem e conseguirem emprego. Só assim terão uma renda e mudarão de vida”, ressaltou Oriente.
Mais seis campi até 2013
Até 2013, mais seis cidades do interior da Paraíba irão ganhar um campus do IFPB. Destas, duas se localizam no Sertão (Itaporanga e Catolé do Rocha) uma no Agreste (Itabaiana), duas no Brejo (Guarabira e Esperança) e uma no Litoral (Santa Rita).
Em Esperança, o prefeito do município, Nobson Pedro de Almeida já doou o terreno onde será construído o campus, que receberá estudantes de mais de 20 municípios da região. A área compreende mais de 20 hectares e se localiza próximo à saída da cidade. “Isso trará um grande desenvolvimento para cidade e por isso ficamos felizes em saber que vamos ganhar um campus.
O terreno já está pronto.  A economia de Esperança é a 15ª maior do Estado, com um PIB de R$ 194,5 milhões. Os municípios de Itabaiana e Catolé do Rocha.

Preparação para o mercado
Além de preparar os estudantes para ingressarem no mercado de trabalho, a UEPB e o IFPB em Monteiro também procuram conscientizar os prefeitos e empresários da região para aproveitar os profissionais. “Temos feito esse trabalho para evitar que os profissionais que formamos aqui tenham que deixar a região em busca de emprego em outros lugares. Essas pessoas precisam ficar na região, construir carreira aqui. Isto tem sido um desafio, mas acredito que seja possível superá-lo logo. As instituições vieram aos alunos. Agora, eles não precisam sair de suas cidades em busca de oportunidades em outras regiões depois que se formarem”, defendeu Ricardo Silva, do IFPB.
O professor Stanley Borges, 25 anos, é natural de Sumé e cursou Matemática na primeira turma após a instalação da UEPB em Monteiro. Após terminar o curso, ele se submeteu ao concurso para professor da universidade e hoje integra o quadro de docentes. “Ele é o maior exemplo da importância da interiorização do ensino. Estudou, aproveitou as oportunidades e hoje é professor da casa”, disse Joelson. “É muito importante. Pois, consegui trabalho na mesma universidade que me formei. Tive a oportunidade de estudar em minha região e agora de trabalhar para ela”, relatou o professor.

Perspectivas de crescimento
Guarabira, no Brejo, já é uma das 10 maiores cidades da Paraíba e com perspectivas de mais crescimento, em diversas áreas. Dados do IBGE mostram que já é a 9ª maior economia do Estado (PIB de mais de R$ 343 milhões). O campus do IFPB nesta cidade só começará a ser construído no próximo ano, mas as aulas funcionam em um prédio provisório. O funcionamento do campus deverá injetar na cidade pelo menos R$ 17 milhões em 2012, o que corresponde a quase 5% do PIB do município. Segundo o pró-reitor de Ensino do IFPB, professor Paulo de Tarso Costa Henriques, dos R$ 17 milhões iniciais, R$ 10 milhões serão só para as obras de construção do campus, que será projetado para cerca de 1.200 alunos.
Doutor em Educação, o professor Paulo de Tarso ressaltou que o impacto que um campus tem em uma cidade é muito grande. Pois, não há desenvolvimento sem educação. “A educação é o meio mais rápido de ascensão social. Ela é uma espécie de motor para o crescimento”, reforça. Ele informou que o IFPB tem hoje cerca de 16 mil alunos em 11 campi. “A previsão é construir mais seis campi, nas cidades de Guarabira, Esperança, Catolé do Rocha, Santa Rita, Itabaiana e Itaporanga. Três deles serão construídos em 2012 e os demais em 2013. Queremos chegar a 2015 com 30 mil alunos e passar de 1.400 servidores para 2.500”, afirmou.

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