sábado

Yamandu e Borghetti fazem noite instrumental




Houve certa agitação e espanto no bar La Pulperia, em Porto Alegre. Afinal, mesmo para um lugar especializado em comida gaúcha e num palco onde grandes expressões da música local já haviam tocado, não era todo dia que um menino de quatro anos espantava marmanjos com seu virtuosismo no violão.

O menino chamava-se Yamandú Costa. O ano era 1984, um marco para a cultura no Rio Grande do Sul, pois, pela primeira vez, um LP de música instrumental, Renato Borghetti – Gaita-ponto, atingia a marca de 100 mil cópias vendidas, tornando-se o primeiro disco de ouro para álbuns do gênero. O Rio Grande do Sul festejava o talento de um grande musicista jovem, com 21 anos à época.

Quando tinha 16 anos, Yamandú Costa vê o palco do La Pulperia se tornar emblemático, mais uma vez, por outro grande móvito: naquele começo da década de 1990, o lugar reunia, pela primeira vez o encontro dele com Renato Borghetti. Hoje, em João Pessoa, eles estão juntos em um show que tem tudo para ser inesquecível. A apresentação será no Teatro Paulo Pontes, a partir das 21 horas.

O que impressiona é a forma como os dois instrumentos se combinam na performance e a maneira apaixonada como Yamandu e Borghetti se apresentam. Vanerão, rancheira, xote - estes são alguns dos ritmos próprios da música tradicional gaúcho, além de chamamé e chacarera, influência da fronteira com a Argentina e Uruguai. Eles compõem a base do repertório.

Yamandu e Borghetti vão partir, então, da música desse território sagrado que apaga a fronteira dos países. “Sim, este show é bem uma fotografia da região, que eu costumo chamar de pátria gaúcha”, fala Yamandu, em conversa por telefone com o CORREIO.

O público terá oportunidade de ouvir canções que fazem parte do imenso repertório da música gaúcha, a exemplo da bela “Redomona”, parceria do poeta Aparício Silva Rillo com o músico Luiz Carlos Borges, dois grandes nomes da cultura regional gaúcha, e “Merceditas”, uma das mais populares canções folclóricas argentinas, de autoria de Ramón Sixto Ríos (1913-1994).

Estar junto de outros músicos é uma constante na trajetória artística de Yamandu. Ele já fez discos e shows com o bandolinista Hamilton Costa e o sanfoneiro Dominguinhos. Chegou a dizer que reaprendeu a tocar após o contato com o mestre nordestino. “Eu sigo um conselho que recebi, o de me juntar com um cara que está à minha frente. Eu sigo fazendo estas parcerias, são muito importantes”, pontua. “Com o Hamilton, que é um músico da minha geração. Dominguinhos é uma aula, uma dinastia, um grande mestre que me acalmou muito, me ensinou bastante. Agora, sem me dizer uma palavra, tudo na categoria, no exemplo”.

‘Eu dormia agarrado ao violão’

De menino prodígio a músico com carreira consolidada, Yamandu lembra que “tudo começou como uma brincadeira de criança”. Ambiente para música, o violonista teve desde criança. Filho de uma cantora, Clari Marson, e de um multi-instrumentista e professor de música, Algacir Costa, Yamandu sempre ouviu muito música brasileira. “Uma tendência que vem da educação que eu tive com meus pais”.

Ao ser perguntado sobre o ritmo de treino e disciplina ao violão, Yamandu recorda que como jovem, sempre foi ligado à festa. “Meus 20 anos foram de extrema festa. Mas, mesmo assim, eu dormia agarrado ao violão. Como se o instrumento fizesse parte do meu corpo”, observa.

Quando questionado sobre projetos futuros, o músico brinca. “Tenho vários. É só ficar de insônia, vou bolando uns dez”, ri. Todavia, revela seus planos e fala sobre o seu momento atual. “Eu venho trabalhando muito o meu lado compositor, estou fazendo um trabalho cada vez mais autoral”.

Mas não há um projeto que ele pense muito em fazer, tocar com alguém. “Não tenho nada em vista neste sentido. Eu penso muito em gravar com um cantor, com um cantor legal, mas ainda não vi isso objetivamente”. E alguma releitura? “Se eu tiver de fazer, eu penso muito em fazer isso com a obra de Baden. Mas é algo que pretendo fazer com calma, em algum momento revisitar a obra desse grande mestre”, adianta Yamandu.  
  
YAMANDU COSTA E RENATO BORGHETTI. No Espaço Cultural (R. Abdias Gomes de Almeida, Tambauzinho, João Pessoa), hoje, às 21h. Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia). Classificação: 14 anos.

CASC-PB/NOTICIA

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