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TRAFICO ABASTECE COMUNIDADE COM FEIRAS


Passou-se o tempo em que o medo era o único jeito dos criminosos fazerem valer a ‘lei do silêncio’ numa comunidade. Traficantes estão usando a política da boa vizinhança e o assistencialismo para ganhar a confiança e o respeito dos moradores. A pobreza e a ausência do poder público garantem o sucesso da ação criminosa. Na Bola na Rede, no Bairro dos Novaes, por exemplo, onde foi instalada, há cerca de uma semana, uma unidade de Polícia Solidária, os traficantes davam remédios e até material de construção a moradores. No Renascer I, também na Capital, o chefe do tráfico, segundo a polícia, já instituiu um dia na semana para distribuição de cestas básicas.

Para o coronel João Luís Sobreira Alvarez, esse foi um dos motivos para a antecipação da implantação da unidade no Bairro dos Novaes, antes da de Manaíra, já anunciada. O comandante do 1º Batalhão de Polícia Militar (1º BPM), coronel Jéferson Pereira da Costa e Silva, elencou mais motivos para a instalação emergencial. “A comunidade Bola na Rede apresentou um índice de crimes violentos, letais e intencionais que nos chamou muito a atenção. Além disso, o tráfico acentuado de drogas e o grande número de dependentes químicos também estão entre as principais razões para essa implantação”, explicou.

Segundo o tenente Sobreira, só neste ano, na comunidade Bola na Rede e proximidades, foram mais de 40 homicídios, porém o aspecto assistencialista se mostrou realmente preocupante. “Além dos números alarmantes da criminalidade, vimos que era ainda mais urgente a necessidade de a polícia estar presente na comunidade, porque a facção que domina a área estava usando um método de comprar a sociedade com serviços sociais, cestas básicas e remédios”, explicou.

Líderes fazem reformas em casas de moradores

O tenente afirmou ainda que, no último homicídio ocorrido na comunidade, há duas semanas, os bandidos também tentaram diminuir os danos causados aos moradores pela ação do tráfico. “Nesse caso, a vítima tentou fugir subindo nos telhados e pulando de casa em casa.

Depois do assassinato, o responsável pelo dinheiro do tráfico da facção pagou as telhas das casas das pessoas que tiveram os telhados danificados”, afirmou. “Isso já é antigo e não acontece só na Bola na Rede. Na comunidade do Renascer I, no Distrito Mecânico, por exemplo, o líder do tráfico distribui, toda terça-feira, cestas básicas na casa dele”, acrescentou.

Para o comandante do 1º BPM, coronel Jéferson, o avanço desses grupos organizados tende a ocorrer em comunidades onde o poder público não se faz presente, contudo, apesar de reconhecer isso, repudiou chamá-los de facções. “Quando se fala de facção, é dada muita importância a esses pequenos grupos. O problema é que uma mentira repetida várias vezes acaba se tornando uma verdade”, enfatizou.

Homicídios crescem 147% na Paraíba

O estudo Mapa da Violência 2011 revela que em 10 anos, o número de homicídios de jovens de 15 a 24 anos aumentou 147% na Paraíba, crescimento sete vezes maior do que o País, que registrou acréscimo de 20%. Segundo a pesquisa, em 1998, foram registrados 149 assassinatos nessa faixa etária, em todo o Estado. Em 2008, o total de mortes chegou a 368. Com isso, a taxa de homicídio juvenil na Paraíba (por 100 mil) passou de 21,9 (em 1998) para 49,8 (2008).

Em João Pessoa, onde se registra o maior índice de mortes de adolescentes e jovens de 15 a 24 anos, a taxa de homicídios é de 124,2 (em 100 mil), o que coloca a cidade como a 6ª Capital do País com maior índice de homicídios juvenis, a frente do Rio de Janeiro, que aparece em 20º lugar (com taxa de 72,8 em 100 mil).

Em uma década (1998 a 2008), 7.195 pessoas foram assassinadas na Paraíba. Desses, quase 40% (2.628) tinham entre 15 e 24 anos e foram mortos principalmente à bala. No Brasil, o número de homicídios juvenis passou de 15,2 mil mortes (em 1998) para 18,3 mil (2008).

Na próxima terça-feira, uma reunião entre a Secretaria de Segurança e Defesa Social da Paraíba e a Polícia Rodoviária Federal (PRF) definirá como serão as estratégias para barrar a entrada de traficantes cariocas no Estado. A PRF já anunciou que usará helicópteros para monitorar pontos vulneráveis nas rodovias federais, estaduais e estradas vicinais que cortam a Paraíba.

Bola na Rede é mapeada pela PM

Em  comunidades dominadas por traficantes, moradores se submetem a um “Tribunal do Tráfico”. Quem descumpre as leis do crime paga com a própria vida. Há uma espécie de código de convivência entre moradores e traficantes, que usam a população para esconder drogas e armas. Facções adotam hinos e raps que traduzem nas letras a crueldade desse negócio. Ocupada no último dia 11, a comunidade Bola na Rede, na Capital, será mapeada pela polícia.

Durante a ocupação, foram apreendidas mais de 100 pedras de crack, entre elas, quatro grandes, três revólveres, uma pistola 765, 33 munições de revólver calibre 38, 47 papelotes de maconha, um computador, três celulares, entre outros.

Segundo o cabo Mário Cavalcanti, também foram presos os testas de ferro do tráfico. “Já vínhamos planejando a ação por mais de três meses, com a ação de policiais à paisana. Havíamos feito uma espécie de dossiê desses criminosos. Como já sabíamos onde eles moravam, fomos direto às casas deles para efetuar as prisões, pois já tínhamos mandados de busca e apreensão”, afirmou.

Um homem identificado como Samuel também foi detido. “Ele que fazia os raps de gangues como a Al Qaeda. Inclusive foi achado com ele um livro com todas as letras de músicas já compostas. O problema é que, depois da prisão, realizada na sexta-feira, os advogados conseguiram fazer com que ele respondesse ao processo em liberdade”, contou o cabo Jonas Pompilo.

Desde então, 32 policiais têm ficado fixos na comunidade, contando com uma viatura e três motos. O posto fica em um antigo mercadinho, que, segundo o cabo Jonas Pompilo, havia fechado porque não conseguiu agüentar a pressão dos líderes do tráfico.

“Antigamente, aqui, o Estado não mandava. O tráfico que ditava as normas, tanto que, quando vínhamos com viaturas, os bandidos corriam. Em uma das vezes, fomos recebidos a bala”, contou. Segundo o tenente João Luís Sobreira, neste primeiro mês, a Polícia Militar vai contar com o apoio da Rotam, do Choque, do Gate, totalizando 60 homens por dia. Nas próximas semanas, será feito um mapeamento completo da área, incluindo os inúmeros becos existentes. “O problema que sempre existiu aqui é porque, como há muitos becos na comunidade, o trabalho dos policiais fica muito mais complicado. Depois que os bandidos entram por esses becos, não temos mais como saber onde eles estão, porque a população não pode ou não quer denunciar”, disse o Cabo Pompilo.

Ocupação é aprovada

Apesar de todos os entrevistados pela reportagem se mostrarem satisfeitos com a presença da polícia na comunidade, os moradores da Bola na Rede ainda temem dar sua opinião. “Eu estou achando tudo nota dez, mas é aquela coisa para quem mora em comunidade: não posso ficar de um lado nem de outro. Prefiro nem dizer meu nome”, disse um morador. Outra moradora que também não quis se identificar divide a mesma opinião. “Eu me sinto muito mais segura. Antes a gente vivia com medo, agora pelo menos está mais tranquilo”, contou.

Outra moradora afirmou que espera que a polícia não saia mais da comunidade. “Espero que eles fiquem. Antes, apesar de os meninos que comandam a área serem muito calmos e nunca terem feito mal a ninguém, eu me sinto mais feliz com a presença da polícia. É mais segurança para nós. Existiu um tempo que um Alexandre era quem mandava em tudo. Ele andava com armas na mão, entrava na casa de quem queria na hora que queria, e ainda ameaçava a gente dizendo que, se a polícia chegasse e nós não lhe déssemos cobertura, ele ia se vingar. Não quero isso mais para mim nunca mais”, desabafou.

Unidade de Polícia Solidária

Segundo o tenente João Luís Sobreira Alvarez, que comanda a unidade de polícia solidária da Bola na Rede, há possibilidade de a criminalidade se deslocar para outras áreas, como a comunidade do Renascer I, no Distrito Mecânico de João Pessoa. “Estamos fechando o cerco dessa região. Já temos uma base na Ilha do Bispo, outra no Alto do Mateus, agora uma aqui na Bola na Rede. A tendência é que, como estamos tomando de volta essas áreas para o Estado, os bandidos vão para outras comunidades próximas, por isso está sendo estudada a possibilidade de colocar uma base lá no Renascer I, para evitar que isso aconteça”, disse.

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