sexta-feira

Espetáculo Deus da Fortuna estreia hoje no Centro


O Mestre Caio Fu, um agiota, materializa a forma humana do Deus da Fortuna. Investido de seus poderes, ordena que um colono, explorado miseravelmente pelo Senhor Wang, proprietário de terras e fazendeiro de arroz, julgue o seu próprio patrão, que está ali, amarrado. “Não posso acusar quem me dá abrigo e comida”, o empregado recusa-se. Ouvimos um coro dizer, entre outras máximas, “se não estivéssemos dormindo o sono da ignorância (...) Eis o que diríamos: ‘Morte aos canalhas proprietários!’”.

Em algum momento desta cena, o momento crucial do espetáculo O Deus da Fortuna, vemos imagens com os protestos na Grécia, em Londres, o movimento de ocupação em Wall Street. Uma fábula que reflete o caos da crise enconômica do capitalismo contemporâneo. Assim é a nova montagem do Coletivo de Teatro Alfenim, cujo projeto recebeu o incentivo do Prêmio Myriam Muniz, da Funarte. A estreia é hoje, na Cia. da Terra, às 20 horas. A temporada se prorroga até o dia 18 de dezembro. Sábado haverá duas sessões: uma às 17 horas, outra às 20 horas. No domingo, sessão única às 17 horas.

Ambientada em uma China ancestral, Deus da Fortuna se constrói a partir de um argumento criado pelo dramaturgo alemão Bertolt Brecht, grande referência de Márcio Marciano, fundador do Alfenim e responsável pela direção e dramaturgia do espetáculo. Por onde passava, o Deus da Fortuna, divindade muito popular na China, causava um rastro de tragédia e desordem. Brecht não deu conta de fazer  o que havia proposto a si mesmo em seus diários de trabalho. Fez, então, algo próximo, a peça A Alma Boa de Setsuan.

“Nossa ideia era fazer o que Brecht pretendia, uma trama na qual o deus passaria por várias situações, mas nós desistimos, percebemos que era inviável”, conta Márcio que trabalhou em processo colaborativo com o grupo que, fundado em 2007, passa por mais um momento de reformulação. “Com a saída de algumas pessoas, a chegada de outras, pudemos reavaliar o projeto como um todo”, observa

Integram a montagem Daniel Araújo, Adriano Cabral, Paula Coelho e Wilame AC, músico que faz uma pequena participação atuando. A estes atores, que já pertenciam ao coletivo, incorporaram-se Lara Torrezan e Vítor Blam, selecionados em uma oficina realizada pelo Alfenim. “O diálogo se deu de modo mais fluido. O grupo está falando a mesma língua e o nível de apropriação se deu de forma mais coesa”, pontua Marciano.
Além da oficina, o  Alfenim realizou um seminário intitulado “A metafísica do capital”, com estudiosos e especialistas.

Protestos em Wall Street: “reformistas”

Pela chave do humor, o Alfenim quis falar sobre o capital especulativo e seu endeusamento, sua metafísica. Mas com quem o espetáculo Deus da Fortuna quer dialogar? “O projeto é falar com o cidadão comum que está vivenciando a experiência da crise do capitalismo”, pontua o encenador. “Queremos promover um debate sobre as causas do descalabro em escala mundial. Por isso que trabalhamos com a fábula, com a analogia, para a partir da reflexão estabelecida, para se desnaturalizar as questões”. Márcio acredita que “a ficcionalização do poder da riqueza pode levar, por exemplo, “o espectador a pensar criticamente o noticiário sobre os últimos acontecimentos”.

Ao, criticamente, apontar que “estamos bovinamente entorpecidos pela promessa enganosa de que um dia também seremos contemplados”, Márcio contrapõe estas imagens, com uma projeção de outras imagens, como a sinalizar a que a sua fábula se refere. Mas não seria contraditório falar contra a passividade e, ao mesmo tempo, apresentar pessoas protestando nas ruas? Márcio acredita que os manifestantes na Europa e nos Estados Unidos são reformistas. “Estão indo para a praça sem levantar a bandeira da luta de classes. No máximo, o que eles querem é que o especuladores sejam mais humanistas”, opina.

No que, então, acredita Márcio Marciano? Na revolução do proletariado? “Não”, responde o diretor. “Mas eu vejo, por exemplo, o contágio como se deram as ações na Primavera Árabe, por exemplo. Aí há uma força e uma potência muito grande”, comenta.

Para Márcio, da mesma forma como o homem descobriu o capitalismo, “é capaz de descobrir uma nova forma de viver em sociedade”. Na sua opinião, o “capitalismo está com os dias contados”. Porém, acredita que não verá este novo mundo. “A minha filha vai fazer parte desta transformação. Eu não vou ver”.
 

DEUS DA FORTUNA. Na Cia. da Terra (Pça. Antenor Navarro, Varadouro, João Pessoa), estreia hoje, às 20h. Sexta, às 20h, sábado, às 17h e 20h, e domingo, às 20h. Até 18 de dezembro. Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (neia)

CASC-PB/NOTICIA

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