segunda-feira

Fé e Cidadania

Na sociedade (ainda) insustentável, os direitos são o nome e a prática da sustentação. Lutou-se durante 60 anos para garantir – e sustentar – os direitos arduamente instituídos e, na sociedade ecologicamente ameaçada, vê-se que os direitos são o centro potencial da sustentabilidade.
A sociedade não está somente insustentável nas páginas dos livros dos cientistas. Está visível ao cidadão comum depois de uma hora de chuva nas cidades grandes e médias. Também no processo de garantir educação de qualidade para todas as pessoas. Do mesmo modo, na materialização lenta da justiça. É como se todo o arcabouço do mishpath (que no hebraico se aproxima da organização do sistema jurídico) estivesse bem colocado, mas não bem distribuído, nem equilibrado, como se depreende da ideia de tsedakah. A terra e os mares, que na tradição judaico-cristã sempre anunciaram a glória da criação e do Criador – chegam hoje próximos da saturação bioquímica, passados 300 anos da revolução industrial.
Nesse ponto dá-se a mutação. Os direitos de cada pessoa e dos grupos sociais a que pertencem serão a garantia do novo sustento da vida, a possibilidade do equilíbrio justo. Tomara que neste mês, em Copenhagen, a conferência internacional sobre o estado da Terra reconheça nos direitos dos indivíduos e dos grupos sociais o fulcro da nova sustentabilidade. Aliás, o ponto de partida para essa mutação de consciência foi dada na ciência e na profecia contemporâneas. Os estudos de biologia, física, química e antropologia, bem como as nanologias, indicaram uma ampla comunicação entre os modos básicos de organização da vida e os modos sociais, as relações inter-culturais e os atos educativos. Processos sociais que degeneram pontos do sistema geral da vida influenciam e impactam noutros pontos e assim sucessivamente. De seu lado, há algumas décadas, a atitude dos ambientalistas desafiou governos, lideranças e populações sobre fenômenos que raras pessoas percebiam e sentiam. Isto foi e é profecia. Os fiozinhos de água que não foram considerados ou garantidos desde as revoluções produtivas iniciadas no século XVIII, a ignorância sobre a alimentação saudável, bem como o descuido para com a educação e a cultura dos pobres da Terra são processos similares, que se ligam, interagem e determinam grandes prejuízos ao ciclo de vida do presente, contaminando as amplas redes de matéria e pensamento. Com razão disse o evangelho de João, que “quem é da terra, fala da terra...”. Tudo diz da vida, inclusive seus perigos.
Convidado pelo Núcleo de Educação em Direitos Humanos, da Metodista, o Ministro Paulo Vanuchi afirmou, em palestra proferida no dia 16 de novembro, que a atualidade viva dos direitos depende do debate social amplo e do contínuo trabalho educativo. Paulo Freire também entendia que a construção da autonomia daqueles e daquelas que aprendem implica atos contínuos de transparência, diálogo social, pesquisa, abertura de todos os temas, sem censura e criação de competência para o julgamento e a tomada de decisões. Nesse sentido, a ninguém pode ser negado o direito de conhecer os riscos presentes, a perspectiva de quanto teremos de mudar a favor da vida de todos/todas e como teremos de ensinar e aprender para a realização da vida digna e continuamente dignificada. Aliás, esse direito transversaliza as várias expressões dos artigos que conhecemos como Declaração Universal dos Direitos Humanos. De um modo muito agudo, fé e compromisso se renovam e produzem sinais. Cabe-nos acompanhar essas novas estrelas, que nada têm a ver com espetáculos e tudo a ver com o direito de ser, na vida e no mundo

CASC-PB

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